ensaio > Trabalho e Linguagem - Pra uma renovação do socialismoTrabalho, linguagem, socialismo. Fernando Haddad mostra neste conjunto de estudos que é preciso desvendar as relações entre estes três grandes temas para revitalizar o conhecimento crítico com propósitos práticos que está no cerne daquilo que já se chamou com orgulho dialética e materialismo.
Fernando Haddad nasceu em 25 de janeiro de 1963 e é professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.
Desde julho de 2005 é o Ministro da Educação do Brasil.
Além do livro Trabalho e Linguagem (2004, Azougue Editorial), lançou os livros O Sistema Soviético (1992, Scritta Editorial), Em defesa do socialismo (1998, Editora Vozes), Desorganizando o consenso (1998, Vozes) e Sindicatos, cooperativas e socialismo (2003, Editora Fundação Perseu Abramo).
No plano das idéias, a mudança mais notável produzida pela transformação do capitalismo a partir de meados dos anos 70 foi o assim chamado linguistic turn.
É principalmente a partir desse momento que desconstrucionistas, gramatólogos, pragmáticos, retóricos e congêneres passam a dominar a cena intelectual em várias áreas. A supremacia da valorização financeira sobre a valorização produtiva, o gradual desmanche do Estado que chegou a ser do bem-estar, a desvalorização dos sindicatos de classe, enfim, a dita crise da “sociedade do trabalho” veio à tona devidamente acompanhada do bombardeio ao “paradigma do trabalho”, vale dizer, ao marxismo enquanto teoria social.
A resposta à pergunta sobre a quem cabe a primazia no processo de posição do homem na História – se ao trabalho ou à linguagem – tornou-se então o sinal decisivo a distinguir defensores de críticos de Marx.
Neste livro, Fernando Haddad desata o nó dessa clivagem enganosa e dá um nó no pensamento que se move por esses parâmetros. O tom elevado de seu ataque fica visível já no primeiro ensaio, onde ele questiona o pensamento de Jürgen Habermas, seguramente o mais criativo e o mais inteligente desses contemporâneos opositores de Marx. E é com a mesma categoria e a mesma argúcia, visíveis no desmonte daquela polaridade originária, que o autor vai investir contra outras clivagens, não menos problemáticas e dela de alguma forma decorrentes.
Agir comunicativo x agir instrumental, Estado x mercado, classe trabalhadora x classe capitalista... sobra quase nada desses pares dicotômicos, depois de filtrados pela análise de Haddad. Mas o autor não se restringe a uma defesa convencional e puramente teórica do materialismo histórico. Ele faz isso resgatando o potencial crítico e analítico da dialética, enquanto uma lógica que é simultaneamente ontologia. Eis por que ele é tão bem sucedido em seu objetivo maior: renovar e atualizar a discussão sobre o socialismo, que tem de continuar no horizonte, sob pena de termos de renunciar à verdadeira civilidade, que a sociedade moderna prometeu, mas ainda não entregou ao homem.
"Num momento de refluxo do movimento socialista, Marx foi lembrado por um camarada de que, em uma de suas obras, Hegel observa que imediatamente antes que surja algo de qualitativamente novo, o antigo estado recupera a sua essência originária, na sua totalidade simples, ultrapassando todas as diferenças que abandonara enquanto era viável. Esse pode ser, precisamente, o caso da "nova ordem" que aparece como a prova definitiva da superioridade de uma determinada formação social quando, na verdade, seria o simples anúncio de seu esgotamento histórico. Não seria por isso que junto com o neoliberalismo surge uma apaixonada compulsão por anunciar a morte do socialismo e do pensamento crítico? Talvez tudo isso seja uma celebração, mas por que a pressa em encerrá-la, o nervosismo estampado no rosto dos convivas?"
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