poesia > Ser Infinitas PalavrasNum texto do fim da década de 1970, Armando Freitas Filho, se referindo a Afonso Henriques Neto e Roberto Piva, falou de “poetas imagéticos à beira do abismo, informados por Jorge de Lima e Murilo Mendes”.
A referência é exata: dono de uma dicção visionária, expressa numa poesia de grande força imagética, Afonso Henriques é um poeta original, autor de uma obra que, embora ainda pouco conhecida, está entre as mais vigorosas de sua geração.
“Ser infinitas palavras” é uma ampla antologia desta obra, seguida de um livro inédito, “A água não envelhece”.
Afonso Henriques Neto nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 17 de junho de 1944, e mora no Rio de Janeiro.
Descendente de uma linhagem de poetas, estreou em 1972 com o livro “O misterioso ladrão de Tenerife”, em parceria com Eudoro Augusto, um dos primeiros da chamada “geração marginal”. Publicou também “Restos & estrelas & fraturas” (1975); “Ossos do paraíso” (1981); “Tudo nenhum” (1985); “Avenida Eros” e “Piano mudo” (1992); “Abismo com violinos” (1995); “Eles devem ter visto o caos” (1998) e “Ser infinitas palavras” pela Editora Azougue(2001), antologia seguida de um livro inédito, “A água não envelhece”.
É professor do Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense.
Sua personalidade poética é indiscutível – tanto mais quanto, chegando após duas gerações de poetas de alta qualidade, ela se afirma independente da influência dos grandes próximos que o rodeiam. E é tanto mais curiosa essa personalidade quanto ela se permite ondular entre formas simplesmente modernas de poesia e formas de nítida vanguarda, como a experimentar forças nos dois setores.
Carlos Drummond de Andrade
EXERCÍCIO
Empurre as mãos lentamente
através da pele do rio
até tocar o coração da beleza
(ruína do tempo impenetrável).
Depois as retire lentamente
como se puxasse do infinito
a respiração
da criança nascendo.
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