poesia > Coisas Que o Primeiro Cachorro na Rua Pode Dizer"A poesia de Caio Meira tem a coragem de ter o prazer de conhecer e de estranhar, e de dar a estranhar e a conhecer aquilo que todo o mundo nem sequer se lembra de ter tido um dia a coragem de conhecer ou de estranhar de verdade. Por isso, isto é, pela sua beleza, ela deve ser lida." Antonio Cicero
Caio Meira nasceu em Goiânia, em 1966, e se mudou para o Rio de Janeiro em 1984. É doutor em Letras com tese sobre Rimbaud e Edmond Jabès. Como poeta, publicou “No oco da mão” (1993); “Corpo solo” (1998); e “Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer” (2003).
“Coisas que o primeiro cachorro na rua pode dizer” é um dos mais instigantes e estranhos livros dos últimos tempos. Em uma série de poemas em prosa, marcados, a começar pelo título, tirado de uma carta escrita por Rimbaud pouco antes de morrer, por um humor refinado e um olhar atento em relação ao mundo.
CLOSE TO THE BONE
acordo e durmo debaixo da pele, sobre a crosta da terra, com camadas de cidade enterradas
movimento películas e superfícies entre outras películas e superfícies quando saio à rua, ou quando me encosto no parapeito desta janela que se despede da noite
acordo e durmo entre membranas impalpáveis, com enzimas, autoregulações e imponderáveis combustões
metabolizo rostos e teorias em meio à confusão de lembranças despropositadas, entre secreções sebáceas, tubos, alvéolos e histórias acumuladas
por vezes sinto esse torvelinho dentro da barriga, e não sei se é fome ou lembrança de fome, ou se são movimentos espontâneos da voracidade do vazio
nem sei que tipo de limite representa a pele, se me separa da madrugada ou me une a ela
se o frio que sinto nesse vidro me pertence ou sou eu que pertenço ao frio ou ao vidro, ou se o ponto em que tudo se entrelaça surge apenas para desaparecer
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