poesia > Reino dos Bichos e dos Animais é o meu nomeEm meados da década de 1980, a artista plástica Neli Gutmacher foi convidada pela psicóloga Denise Corrêa para montar um ateliê na Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, a mesma onde viveu Artur Bispo do Rosário. Foi lá que ela conheceu, junto com suas estagiárias, Stela do Patrocínio, uma interna, negra, alta, que possuía uma fala peculiar, com alto teor poético. Uma das estagiárias, Carla Guagliardi, impressionada pela força dessa fala, guardou as fitas gravadas com Stela, que quase 15 anos depois foram transcritas, em forma de poesia, pela poeta Viviane Mosé. “Reino dos bichos e dos animais é o meu nome” é a reunião destas transcrições poéticas, num livro de surpreendente beleza que foi finalista do Prêmio Jabuti de 2002.
Stela do Patrocínio nasceu em 9 de janeiro de 1941. Interna desde 1962 da Colônia Psiquiátrica Juliano Moreira, impressionou a artista plástica Neli Gutmacher e seu grupo de alunos, que gravaram as conversas que constam no livro Reino dos bichos e dos animais é o meu nome (2001, Azougue Editorial). O livro em 2002 tornou-se finalista do Prêmio Jabuti além de ser transformado em ópera pelo compositor Lincoln Antonio. Faleceu em 1997, na mesma Colônia onde passou vinte e cinco anos.
Viviane Mosé é capixaba e mora no Rio de Janeiro desde 1992. É psicóloga e psicanalista, mestra e doutoranda em filosofia pleo IFCS-UFRJ. Têm publicados os livros, Escritos (1990, Imã, Sub-Reitoria Comunitária UFES), Toda Palavra (1997, Sette Letras) e Pensamento Chão (2001, Sette Letras). É professora de Filosofia e Psicanálise na Universidade Salgado Oliveira, em Niterói.
Trata-se de um livro assombroso – pela beleza e pelos sobressaltos que provoca. Um século de psicanálise já deixou bem claro o quão tênues podem ser os limites entre razão e loucura. Ainda assim, flagrar lucidez na verborragia aparentemente caótica de Stela desperta profunda inquietação.
Armando Antenore, Folha de São Paulo
Eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
Eu era ar, espaço vazio, tempo
E gases puro, assim, ó, espaço vazio, ó
Eu não tinha formação
Não tinha formatura
Não tinha onde fazer cabeça
Fazer braço, fazer corpo
Fazer orelha, fazer nariz
Fazer céu da boca, fazer falatório
Fazer músculo, fazer dente.
Eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
Fazer cabeça, pensar em alguma coisa
Ser útil, inteligente, ser raciocínio
Não tinha onde tirar nada disso
Eu era espaço vazio puro.
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