cinema > O Primeiro Cinema - Espetáculo, narração, domesticaçãoO primeiro cinema: espetáculo, narração, domesticação traz uma síntese atualizada das questões do “primeiro cinema” ou “cinema das origens”.
Produto de pesquisa exaustiva, articula dados históricos e uma discussão estética apoiada em estudos de ponta sobre o “primeiro cinema”, oferecendo uma lição sobre o seu objeto e introduzindo problemas centrais de uma historiografia que tem, na pesquisa sobre o início do século 20, um de seus pólos de maior ressonância. Uma nova edição revista pela autora.
Flávia Cesarino Costa possui graduação em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (1985), mestrado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1994), doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2000) e pós-doutorado em Cinema pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.
O primeiro cinema baseia-se na dissertação desenvolvida por Flávia Cesarino Costa em seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação em Semiótica da PUC-SP, defendida em 1994.
A possibilidade de designar como domesticação este processo de integração do cinema a uma cultura dominante e a sua transformação em espetáculo de massa justifica o título deste trabalho. Estamos chamando de domesticação esta transformação que começa a se operar no final do período do primeiro cinema. Daí o sentido de assim ordenar as palavras do título: espetáculo, narração, domesticação. É uma tentativa de metaforizar o percurso do cinema, da dominância do espetáculo popular até a dominância de um modelo narrativo consagrado pela tradição.
Esta domesticação não se refere apenas à adequação do cinema a um novo público de classe média, à moralização temática dos filmes, à familiarização do ambiente em que eram exibidos, ou ao que Noel Burch chama de codificação capitalista da propriedade da imagem sobre um estado anterior (de apropriação do cinema pelas massas e pela cultura popular). Quando falamos em domesticação, estamos nos referindo também a uma submissão civilizatória, através da transformação do próprio código narrativo do cinema. O que se traduz também na perda daquele sentimento de desamparo mencionado no início deste capítulo, de desalento diante do decorrido, do irrecuperável, da “vida que aparece para morrer a cada instante”. A domesticação que vai se instaurando no primeiro cinema parece ter a chancela do senso comum. Ela se estabelece como um processo de homogeneização na representação do espaço e do tempo, como um processo de enquadramento de forças divergentes, de fabricação de personagens sem ambigüidade, de finais felizes necessários. Ela faz uma moralização das trajetórias, realiza um certo encarceramento dos movimentos histéricos e incontroláveis, presentes nos objetos repentinamente animados e nos personagens possuídos que povoam os filmes de transformações. A instalação gradual do princípio de alternância na narração do cinema está ligada a este movimento maior, talvez mais sutil, desta produção de uma causação necessária de aventuras, perdições e punições. A domesticação pode ser entendida nesse sentido como uma força homogeneizante, esta é a sua principal característica, e ela gradualmente se tornou dominante, seja dentro dos filmes – em sua linguagem –, seja fora deles – em seu contexto. |