literatura > Os Passos em voltaHerberto Helder é uma figura mítica da literatura portuguesa contemporânea.
Considerado possivelmente o maior poeta português desde Fernando Pessoa, é conhecido por ser uma figura recolhida nos moldes de um J.D. Salinger, um Thomas Pynchon ou do nosso Rubem Fonseca.
O livro Os Passos em Volta, seu primeiro livro de contos, editado originalmente em 1963 e só agora publicado no Brasil, é considerado um clássico da literatura portuguesa.
Nascido em 23 de novembro de 1930, Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira é natural da Ilha da Madeira. Aos 15 anos, foi estudar em Lisboa, onde vive atualmente. Ele é possivelmente o mais original e importante poeta vivo de Portugal, tendo estreado com o livro “A colher na boca”, em 1958. Mais recentemente, em 1994, publicou “Do mundo”, obra pela qual recebeu o Prêmio Pessoa. Entretanto, preferiu não receber a homenagem. A Editora Iluminuras publicou uma antologia da sua poesia, “O corpo, o luxo, a obra”, em 2001.
O maquinismo herbertiano faz com que as coisas deslizem desamparadas para dentro da linguagem e sejam então iluminadas por uma luz cruel, que não poupa os pactos de normatização social – as leis, os códigos comportamentais, a moral, a língua, a literatura, a boa educação do inconsciente. Tudo é tragado – e nós, leitores – para dentro desta escrita cujo frescor e brilho, simultaneamente, assustam e fascinam.
Eucanaã Ferraz
– Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa, contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes já não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?, acorda-se às quatro da manhã num quarto vazio, acende-se um cigarro... Está a ver? A pequena luz do fósforo levanta de repente a massa das sombras, a camisa caída sobre a cadeira ganha um volume impossível, a nossa vida... compreende?... a nossa vida, a vida inteira, está ali como... como um acontecimento excessivo... Tem de se arrumar muito depressa. Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja? Vejamos: o estilo é um modo sutil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação.
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