poesia > A MontanteA Montante, esperado livro de estréia do poeta carioca, um dos editores da Revista Azougue.
Poemas transcendentes, marcados por um encontro com a etnopoesia e poéticas de exceção na tradição brasileira.
Daniel Bueno nasceu no Rio de Janeiro em 1973. Poeta e tradutor, é mestre em literatura com tese sobre os cantos xamânicos Kaxinawá. Co-edita, com Sergio Cohn, Luiza Leite e Pedro Cesarino, a revista Azougue. A montante é seu primeiro livro de poemas.
Repara: essa é uma poesia estranha. Difícil situá-la na nossa tradição literária. Não é cotidiana, não é metafísica, não é delirante. Aliás, não há quase nenhum elemento humano nela. Apenas rios, árvores, relâmpagos. Sombras que passam como animais. É uma poesia que abandona a paisagem humana, seja urbana ou rural, para penetrar em outro espaço. É uma poesia selvagem, no sentido da selva oscura de Dante. E que assim se situa numa “tradição de exceção” dentro de nossa literatura, uma vertente ainda por ser compreendida. Penso no Fagundes Varela do Evangelho da Selva, penso em Leonardo Fróes e Roberto Piva.
Mas repara: é essencialmente sobre o humano que essa poesia fala. Nunca de uma forma especular, mas a partir do encontro com o alheio. Essa poesia é, como a floresta, um oráculo. Um oráculo feito de signos vivos demais que, se não podem servir de norte, nos ofertam a possibilidade da experiência.
Sergio Cohn
o mundo não é mais antigo
não é mais antiga a árvore
nem o vínculo é mais antigo
noite que abrange meu teto
de bananeiras e galhos finos
o rio arrasta troncos pela noite
pequeno teto que me abrange
para sempre nesta noite
o mundo não é mais antigo
do que a sombra que atravessa
a noite como um bicho não é
mais antigo que o pernoite
![]() ![]() ![]()
|