ensaio > Os Executivos das Transnacionais e o Espírito do CapiltasmoO livro, Os Executivos das Transnacionais e o Espírito do Capiltasmo, desvenda a face mais atual de um denso processo histórico, o do desenvolvimento capitalista em escala mundial.
Examina-se nele o jogo da plena "humanização" do capital e da plena "capitalização" do homem.
No caso, trata-se de um tipo particular de homem, o executivo na sua figura contemporânea mais acabada, o integrante da grande empresa transnacional. Este passa a ser valorizado não mais como mero representante, porém como literalmente portador do capital, unindo em si as figuras, outrora incompatíveis, do "empresário" e do "trabalhador".
Vê-se assim uma retomada, em insuspeitado registro, do tema da formação, só que agora na forma da aquisição de capacidades, destrezas, disposições úteis ao desenvolvimento do capitalismo na sua fase contemporânea. E – ponto decisivo na argumentação do autor – essa aquisição se faz mediante uma forma de investimento, o investimento em si próprio, que gera um produto singular: o capital humano.
Temas centrais como o do capital humano e do empreendedorismo são aqui levados a sério e examinados na sua constituição e como valores sociais, com o respeito crítico que merecem como expressões reais da organização social contemporânea.
Osvaldo López-Ruiz é sociólogo e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas. Fez pós-doutorado no CEBRAP. Atualmente é pesquisador do CEBRAP e integrante do Grupo de Pesquisa CTeMe (Conhecimento, Tecnologia e Mercado) da Universidade Estadual de Campinas.
Apresentação por Laymert Garcia dos Santos
Texto de orelha por Gabriel Cohn
href="http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2613,1.shl">Clique aqui para ler coluna de Carlos Alberto Dória sobre a tese que originou o livro
No começo de cada semestre é comum ouvir, no rádio ou na televisão, a publicidade de uma grande variedade de cursos oferecidos por escolas, faculdades e universidades particulares:
Fazer pós-graduação é hoje uma exigência do mercado
Fazer pós-graduação é estar vivo no mercado
Invista na sua pós-graduação
ou
Assegure o emprego de seus sonhos, faça pós-graduação na ...
Os custos desses cursos, as despesas geradas por eles, têm de ser pensadas, claro, como um investimento. Agora, quando um gasto deixa de ser um consumo e passa a ser um investimento não é apenas uma etiqueta que muda, nem uma coluna num balanço contábil. Para se transformar num investimento, o gasto deve se enquadrar numa normativa que discrimina qual gasto é ou não é um investimento. Quem gasta deve obedecer a uma ordem normativa/valorativa externa – imposta por “outro”, determinada pelo mercado – que estabelece que um curso de línguas, por exemplo, é um investimento se a língua escolhida for o inglês ou o espanhol, mas que pode ser um simples consumo se for francês ou tupi, porque a exposição no curriculum destas últimas pode não acrescentar nada ou até mostrar uma desaconselhável dispersão de interesses (e, também, de recursos).
Um curso de degustação de vinho é um consumo ou é um investimento? Conquanto melhore as capacidades do indivíduo como consumidor, aumente seu capital humano (seu capital de consumo), pode-se dizer que se trata fundamentalmente de um investimento. De fato, pode trazer grandes benefícios não apenas ao aumentar as satisfações futuras a obter através do consumo, mas ao aparelhá-lo com uma ferramenta de socialização necessária para aceder algum dia, por exemplo, aos níveis mais altos do mundo corporativo. Em outras palavras, o investimento feito no curso de degustação não apenas vai trazer futuras satisfações ao permitir um consumo de vinhos mais sofisticados – incrementando, assim, seu capital de consumo –, mas acaba sendo também parte do capital de produção porque vai permitir um uso mais eficiente do seu networking (da sua rede de relacionamentos) e aumentar as probabilidades de sucesso no próprio marketing pessoal, atividade fundamental e tarefa imprescindível para um capitalista do seu capital humano.
O que a teoria do capital humano consegue fazer é transformar o consumo num investimento e, portanto, o consumidor num investidor. Estabelece-se, assim, uma nova relação entre o presente e o futuro. As pessoas capitalizam-se consumindo: “eu consumo hoje para meu futuro”; ou o que acaba sendo o mesmo, “eu postergo minhas satisfações consumindo agora”. Nisto não há contradição desde que se tenha dado uma redefinição prévia do consumo em termos de investimento; então: “eu invisto hoje para meu futuro”, “eu postergo minhas satisfações investindo agora”. Dessa forma, o espírito do capitalismo se ajusta a uma nova situação mostrando continuidade com o descrito por Weber há cem anos. A teoria do capital humano consegue flexibilizar, primeiro e explicitamente, o conceito de capital e torná-lo assim muito mais abrangente: as diversas formas do capital devem ser pensadas como múltiplas e heterogêneas, podendo ser classificadas em capital humano e não-humano. Em segundo lugar, ela consegue flexibilizar também os conceitos de consumo e investimento, deixando-os com limites difusos que sempre podem ser (re)fixados a posteriori segundo as necessidades do sistema econômico, segundo as necessidades do mercado – o tupi pode se tornar uma capacidade requerida pelo mercado (e como tal, uma forma de capital) com, por exemplo, o desenvolvimento, num determinado momento, do turismo étnico.
A tese aqui proposta é, portanto, de que a diluição de uma diferença clara entre consumo e investimento, promovida pela teoria do capital humano, torna-se um elemento fundamental para a compreensão da lógica sobre a qual funciona a sociedade atual e dos valores que a orientam. É a partir da área difusa que se cria entre o que se entende por consumo e o que se entende por investimento, que se torna possível ordenar e legitimar socialmente prioridades cambiantes. É a partir dessa vaguidade que se articula e se reafirma a cultura de consumo – que em muitos casos se apresenta como uma cultura de investimento. As pessoas capitalizam-se consumindo e podem fazê-lo de inúmeras formas: capitalizam em qualidade de vida, por isso é legítimo investir em viagens; capitalizam na própria carreira, por isso é legítimo investir tempo e dinheiro em treinamentos; capitalizam em relacionamentos, por isso é legítimo investir em sofisticados e caros objetos de design na decoração de suas casas; capitalizam em cultura, por isso é legítimo investir em cursos acelerados que dêem os códigos sistematizados para que a fast culture possa ser digerida-comentada-capitalizada.
![]() ![]() ![]()
|