poesia > NoivaNoiva é a seqüência inevitável (mas ainda assim surpreendente) do que o autor, Renato Rezende, já roçava explorar em Ímpar (publicado em 2005 e ganhador do Prêmio Alphonsus de Guimaraens da Biblioteca Nacional). Trata-se de um texto que não se resolve entre prosa, poesia, diário, depoimento, ou qualquer outra modalidade literária. A sua poesia é, entre outras coisas, o registro de uma vivência meditativa desconcertante e a tentativa de viver no limite da perplexidade entre ser e não-ser. Noiva é um livro extremamente contemporâneo.
Nas palavras de Eduardo Guerreiro: “O livro se define por uma palavra que usou: ‘estilhaços’. Clarice dizia que não se preocupava em escrever literatura, por isso escrevia simples, mas conseguiu a tão difícil intensidade da mais genuína literatura no âmago da simplicidade. Noiva chega a ser, num certo sentido, mais radical: assimila erros gramaticais da língua falada, abreviaturas da escrita informal (pq) com o claro objetivo de se distanciar da linguagem, claro que sempre por meio da linguagem. Ao contrário do culto e do cultivo da linguagem na sua definição mais teórica em voga hoje, o que interessa é a perda da linguagem, sacrificando por isso qualquer rastro de artesanato e cuidado da escrita para ganhar a experiência. Armando Freitas Filho, por exemplo, luta com a linguagem até o fim, possui uma escrita plena de conflito entre o cuidado extremo e o descontrole, ao contrário do relaxamento da geração marginal. Renato Rezende seria uma alteridade ainda não imaginada dos dois (Armando e geração marginal): desespero e desejo extremo da experiência de abandono total da linguagem por meio do ‘descuido calculado’ com a mesma, da destruição da linguagem do eu e do eu da linguagem, trata-se de um verdadeiro descuido ascético, lá onde se dá a ascese propriamente dita: na cotidianidade diária, no desenrolar do tempo vivido.”
Nascido em 1964, Renato Rezende é autor, entre outros de Aura (2AB, 1997), Passeio (Record, 2001), com o qual recebeu a Bolsa da Fundação Biblioteca Nacional para obra em formação, e ímpar (lamparina, 2005), ganhador do Prêmio Alphonsus de Guimaraes da Biblioteca Nacional. Vive no Rio de Janeiro.
Os poemas de Noiva são um pouco de cada um de nós, e de todos nós juntos. Desta forma, ele pode ser compreendido como um livro de fol amour por todas as coisas e por todos os seres, o que inclui você, leitor. Somos todos noiva e noivos, noivo e noivas
È como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo - o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecer-me. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem-
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